domingo, 11 de outubro de 2009

ANTICHRIST - ANTICRISTO
diretor:Lars Von Trier
roteiro:Lars Von Trier
elenco:Charlotte Gansbourg,Willian Dafoe

Assim como uma grife de moda estampa sua marca em todos os modelos de sua franquia,Trier faz questão de por seu nome em evidência.O primeiro frame de seu novo trabalho é ,o seu nome em letras grandes e garrafais:¨LARS VON TRIER¨.Com carreira e arrogância já consolidadas no cinema mundial,ele lança sua mais controversa e importante obra."Anticristo" é um filme lírico,repleto de significados nas entrelinhas,recheado de violência gráfica repulsiva,e restrito da um público ínfimo que irá apreciar a obra.Já da pra perceber que é mais um "filme de autor"."Anticristo" não é suspense,não é drama familiar,não é pornô,muito menos terror,"Anticristo" é um filme de Lars Von Trier.

Foi Trier um dos idealizadores do movimento cinematográfico "Dogma 95".Uma série de regras seguidas por um grupo de cineastas europeus na década de 90.O movimento proibia trilha sonora,créditos,luz ou som artificial e cenografia.O objetivo resgatar o que seria o cinema na sua mais pura forma,um forma de protesto contra o uso do cinema como exploração comercial."Anticristo" quebra totalmente os tais "dogmas".O novo filme de Trier é uma experiência de cinema completa e poderosa.Música marcante,fotografia estonteante,câmera voyeurística,créditos grandes e coloridos.Isso sim é cinema na sua mais pura forma!

sinopse:Um casal acaba de perder seu filho de dois anos.Ele(Willian Dafoe) é um terapeuta que torna todas as pessoas ao seu redor seus pacientes.Ela(Charlotte Gansbourg) é uma historiadora que acaba se submetendo a um "luto anormal" após a perda do primogênito.Numa tentativa de acabar com o sofrimento da mulher,Ele leva ela até uma cabana numa floresta distante chamada "Éden”,local onde o "caos reina" .

Certa vez,Kurosawa disse que a primeira cena nunca deve ser a mais elaborada.É difícil pensar em algo do tipo,mas "Anticristo" é um filme que vale pelos minutos iniciais.Trier começa sua história com uma criativa e ousada sequência slow motion em preto e branco.A cena mostra o grande mote do filme:Enquanto o casal transa loucamente no banheiro,o bebê abre a trava do berço,sobe no balcão e se joga pela janela. Trier mira cada detalhe da cena,o pênis penetrando na vagina,um vaso espatifando no chão,o bebê caindo lentamente junto com a neve...Tudo isso embalado por um coral de sopranos cantando suavemente... As reticências servem pra você imaginar a cena em sua cabeça,mas algo assim,francamente, só a mente de Lars Von Trier pode imaginar.

Lançado em esse ano em Cannes,o filme,como se fosse novidade,dividiu a platéia.Ouve uma vitória parcial do time dos que vaiaram,mas os aplausos sem dúvida existiram.A principal crítica do povo que não gostou é a de que o Trier não diz nada.Segundo eles,toda a violência e o sexo do filme são gratuitos,apenas mais um fetiche do diretor obcecado por polêmica.Muito pelo contrário,"Anticristo" tem muito a dizer.

Talvez um defeito do filme seja ele dizer coisas demais.É grande o número de significados,de mensagens e de simbolismos na obra.É apenas uma questão de tempo para que cinéfilos lunáticos comecem a decifrar os enigmas de Trier. O primeiro significado é bem simples."Anticristo" é um manifesto feminista.Uma reflexão sobre a soberania do homem na relação de um casal e o papel da mulher através da história.O filme mostra o anormal luto e comportamento da personagem de Gansbourg como uma forma de revolta contra o papel da fêmea na natureza.Uma reflexão sobre a intransigência do sexo masculino e a eterna representação da mulher como ser sentimental com a única função de reprodução.O fato da floresta se chamar "éden" é uma clara alusão ao jardim da criação,o início da tradição repressora masculina.Ainda no final,a belíssima última cena também confirma a tese.

Anticristo seria um filme muito mais celebrado se Trier fosse mais benevolente com a platéia.Ele simplesmente não perdoa.É como se ele passasse a platéia por uma espécie de processo seletivo,um joguinho para ver quem fica até o fim sessão.É um filme difícil para qualquer espectador,mas é especialmente devastador para as mulheres,principalmente pelas cenas sado-masoquistas com Charlotte Gansbourg.Só na metade da duração,o público tem a infelicidade de conferir a primeira cena de mutilação genital em close do cinema.E o pior é que ela nada acrescenta a trama,que poderia muito bem terminar com menos sangue.

Se o senso artístico de Trier esta a todo vapor,o elenco também está no auge de seu talento.A trama possui apenas dois personagens,interpretados por uma dupla de atores geniais e subversivos,Willian Dafoe e Charlotte Gansbourg.Willian Dafoe já havia passado por uma situação parecida nos anos oitenta,quando protagonizou "A Ultima Tentação de Cristo" de Scorcese,um dos filmes mais polêmicos daquela década.A atriz francesa,Charlotte Gansbourg,se entrega totalmente a sua personagem,incorporando as cenas de dor e sofrimento de maneira impressionante.Mas uma vez se pode perceber a mão do diretor,sempre competente na direção de atores.

Mesmo com sua arrogância e orgulho,Trier admite suas influências.Logo na abertura dos créditos finais ele dedica o filme a Andrei Tarkovsky,falecido diretor soviético que influencia "Anticristo" da cabeça aos pés.Coincidentemente há um més atrás escrevi sobre "Sacrifício",aparentemente a maior espelho de Trier para filmar sua obra.O lirismo,a influência bíblica e o slow motion em preto e branco também são características do filme de Tarkovsky.

Tecnicamente perfeito,escrito e filmado de forma única,"Anticristo" é um filme diferenciado.Talvez um pouco depressivo e sangrento demais,mas isso são apenas ingredientes que fazem da obra uma experiência forte e inesquecível,cinema com C maiúsculo.

nota:8,0

CAOS REINA
Momento "Que Porra é Essa?!" do filme:



quinta-feira, 17 de setembro de 2009

STANLEY KUBRICK - A LIFE IN PICURES(2001)
diretor:Jan Harlan

Cada filme seu era uma revolução.Lançava a obra,e era aquele alvoroço na mídia.As platéias lotavam ou boicotavam a obra.A crítica amava ou apedrejava.Não importa o gênero,nunca existiu reação meia-boca.Pode se dizer que Stanley Kubrick era um diretor de extremos.Quando ele encabeçava a realização de uma obra de cinema,passava anos planejando,reescrevendo o roteiro,decorando a trama,pensando no seu próximo passo.Dotado de um perfeccionismo raras vezes visto na arte,pode se dizer que nunca ninguém levou cinema tanto a sério quanto Kubrick.Frame por frame,nos seus 16 filmes ele conseguiu marcar a história da sétima arte 16 vezes.

O documentário de Jan Harlan esclarece muitas coisas sobre a vida do mestre.Avesso a entrevistas,Kubrick vivia recluso e pouco da sua vida pessoal era divulgado.Associando seu comportamento em relação a mídia com suas obras transgressoras e revolucionárias,muito foi dito que Kubrick era um demente.O documentário mostra o diretor como um cidadão normal que vivia em função de sua família e de sua arte.

Os realizadores tiveram o privilégio de contar com depoimentos do mais conceituados diretores americanos contemporâneos a Kubrick.Polack,Scorcese,Allen dão suas impressões sobre a filmografia do homenageado.Assim como entrevistas com atores já dirigidos pelo mestre,profissionais técnicos e críticos de cinema.A narração fica por conta do mala do Tom Cruise,ator o qual seu melhor trabalho foi a última obra de Kubrick.

Bem editado e embalado pelas trilhas dos filmes do diretor,"Imagens de Uma Vida" é prato cheio para cinéfilos que anseiam em descobrir ligações entre a obra e a vida de Kubrick.Alguns podem até ter sensação de que falta algo,simplesmente pela falta de curiosidades excêntricas sobre o mestre.Mas o essencial e o trivial do que se deve saber sobre o mestre está muito bem representado em agradáveis duas horas.

nota:8,0

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

CIDADE DE DEUS(2002)
diretor:Fernando Meireles,Kátia Lund
roteiro:Bráulio Mantovani
elenco:Alexandre Rodrigues,Jõao Firmino,Matheus Nachtergaele

Há 44 anos atrás,Glauber Rocha criou a tal da "estética da fome".Um olhar cinematográfico especial para retratar a miséria do povo brasileiro.Nos seus filmes,Glauber mostrava sua visão mísera sobre a miséria do sertão nordestino.Desenvolvendo suas tramas em ritmo lento e com atuações teatrais,o baiano promoveu a inclusão da cultura brasileira nos filmes nacionais.Ninguém imaginava,que 37 anos depois a pobreza do povo brasileiro no cinema mudaria tanto.Era difícil prever a mudança que os filmes lançados nessas três décadas provocariam na visão dos cineastas brasileiros."Cidade de Deus",é,na sua estrutura narrativa,o extremo oposto dos filmes de Glauber.E,assim como os filmes do baiano,a obra de Fernando Meireles é um divisor de águas do cinema nacional do século XXI.Um drama envolvente,tecnicamente perfeito,que assim como possui influências claras,é também um poço inovação e originalidade.

"Cidade do Deus" envolveu alguns dos melhores profissionais de cinema brasileiros da atualidade.Todos reunidos para falar de um dos temas mais contundentes da produção cinematográfica nacional,a violência urbana.Na verdade,o tema não era tão contundente assim até lançamento do filme,em 2002.A obra gerou inúmeros debates,revelou novos talentos,ganhou prêmios mundo afora,e abriu caminho para vários outros filmes sobre a violência brasileira que viriam pela frente.E se já não bastasse a babação da crítica internacional em cima da obra"Cidade de Deus" tornou-se um dos filmes brasileiros mais populares de todos os tempos,a a violência nua e crua que chocou as platéias estrangeiras,divertiu o público brasileiro,que já adotou a famosa fala:"Dadinho é o c@!#$....." como um bordão popular.Portanto,já não serei o primeiro a ovacionar a obra-prima de Meireles,muito menos o último.

Diferente de Glauber,Fernando Meireles não possui nenhuma estilo próprio,ele procura reinventar-se a cada projeto.Isso mostra sua já assumida preferência em aproximar suas obras do público ao invés da crítica.É impossível defini-lo como um estilo,e sim com suas preferências e preocupações ao realizar um filme.Basta ter em mente que ele é um diretor que possui na sua filmografia um filme infantil "Menino Maluquinho 2" junto com o próprio "Cidade de Deus".Mas,além de tudo,ele é um grande orgulho para todos os cinéfilos brasileiros,que há tempos não tinham um conterrâneo alcançando voôs tão altos.Indicado ao Oscar,e diretor de outros dois excelentes filmes em Hollywood,"Jardineiro Fiel" e "Ensaio Sobre a Cegueira".

sinopse:Buscapé é um menino pobre,habitante da recém-inaugurada comunidade "Cidade de Deus".Com o tempo,a violência toma conta o local,que acaba se tornando uma das mais violentas favelas do Rio de Janeiro.Sensível e desorientado,Buscapé teme a vida de bandido,e busca na fotografia uma salvação.Pelas lentes da sua câmera,ele olha conta a história da favela e seus mais ilustres personagens.

O filme traça um interessante panorama do Rio de Janeiro dos anos 60,70 e 80.Reconstituindo com perfeição o período em nos bailes funk´s se escutava James Brow ao invés de Tati Quebra-Barraco.Todos os elementos culturais pertencentes a cada década estão presentes no filme,que são retratadas de forma linear,em três fases nitidamente distintas entre si.Mesmo assim,o ritmo nunca se perde,e até mesmo o interesse do público que não liga pra esses detalhes é mantido.

As principais críticas ao filme do povo que não gostou são:
1.Cidade de Deus glorifica a violência.
2.O filme passa uma imagem ruim do Brasil para o público estrangeiro.
Não considero o filme perfeito,impecável,mas não consigo compreender as duas afirmações.A primeira é a mais absurda."Cidade de Deus" é um dos mais bonitos manifestos pró-paz já feitos no cinema.Diferente do 'neo-noir tarantinesco' no qual o filme é muitas vezes erroneamente comparado,é explícito em cada cena de violência a discrição no qual Meireles e sua equipe tratam o tema.Sempre quando alguém morre,a imagem é imediatamente desfocada,e a câmera muda de perspectiva.A violência gráfica é pouca durante todo o filme,assim como qualquer apologia a ela.Isso sem falar no nítido moralismo do desfecho da trama.
Quanto a segunda questão,basicamente deve-se ressaltar que é um comentário feito pessoas que não compreendem cinema,ou não tem noção dos problemas do país onde vivem.O que eles queriam ver na tela num filme sobre o Brasil? Mulatas sambando no carnaval? As praias e todas maravilhas naturais do país? Será que todo filme nacional tem que ser uma propaganda turística?

Como já citei antes,"Cidade de Deus" é constantemente comparado a "Pulp Fiction" e outros filmes de Tarantino.Tal comparação não condiz em nada com o propósito dos realizadores,que negam veemente qualquer ligação.Mesmo assim,existem claras influências do cinema dos anos 90.É fácil de enxergar "Os Bons Companheiros" no filme.O ritmo frenético,a edição inteligente e principalmente a narração em off,se assemelham muito com a obra de Scorcese,que por sinal é fã de Meireles.Em algumas cenas a influência pode até ser vista como uma homenagem.Sabe aquela tomada de "Os Bons Companheiros" em que a câmera viaja pelo bar e Ray Liotta vai apresentando as curiosas figuras do local ao espectador? Troque o bar pela favela,Ray Liotta por Alexandre Rodrigues e os mafiosos italianos por bandidos dos morros cariocas,pronto,você tem uma cena de "Cidade de Deus".

Se pudesse estimar uma porcentagem de méritos dos realizadores do filme,atribuiria uns 40% do brilhantismo da obra a Daniel Rezende,o responsável pela edição.Sua influência na forma como a trama se desenvolve e nos truques de câmera é enorme.Talvez a edição seja um dos maiores diferenciais da obra,mas está milhas longe de ser o único.Deve-se aplaudir Bráulio Mantovani pelo roteiro perfeito,César Charlone pela fotografia vívida que muda conforme a trama,o elenco impecável,e é claro,aplausos também para Fernando Meireles,o maestro dessa tão bem orquestrada obra-prima.

nota:9,6

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

BRUNO(2009)
diretor:Larry Charles
roteiro:Sacha Baron Cohen,Anthony Hines,Peter Baynham,Dan Mazer,Jeff Schaffer
elenco:Sacha Baron Cohen


Qual é o limite que o humor negro pode atingir? O que choca a platéia? Você,se sente incomodado em ver um close genital? E uma uretra falante?? Sacha Baron Coehn testa tudo isso e muito mais em seu novo manual de como deixar pessoas constrangidas.Depois do sucesso de "Borat" em 2006,Coehn e Larry Charles resolvem impor mais um desafio ao público,dessa vez cem vezes mais ultrajante e ofensivo,e é claro,ainda deixando mandíbulas doloridas no final da sessão.

"Bruno" pode não repetir a genialidade de "Borat",mas mantém o status de Cohen ainda alto.Embora ele seja odiado na mesma proporção que é aclamado,seu talento é inegável.Na verdade,a comédia é cheia de pessoas talentosas,o que diferencia Sacha dos milhares de stand uppers e imitadores por aí é a sua estupenda originalidade e capacidade de inovação.Sem impor limites a si mesmo,e conservando o bom e velho humor britânico,Cohen é o comediante do momento.

Desde quando estreou como comediante no extinto programa da Sony "Da Ali G Show",Cohen já apresentou suas três faces,um repórter cazaque,um rapper britânico e um repórter gay austríaco.Desde então,ele simplesmente ignorou sua identidade,assumindo de vez as três figuras bizarras que ele mesmo criou.Fazendo apenas algumas pontas como ele mesmo,em filmes como "Sweeney Tood" de Tim Burton.Em 2006 ele aliou-se a Larry Charles, diretor especializado em documentários e polêmica,e juntos chegaram ao consagrado formato "documentário falso" apresentado em "Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja a América".

Historiador por formação,Cohen sabe muito bem o impacto de sua comédia.E vê nos seus pseudônimos uma forma de expor preconceitos,mostrando a ignorância do próprio espectador ao se sentir ridicularizado.Outro aspecto interessante do humor de Cohen é a sua capacidade ilimitada de fazer piada sobre tudo,até sobre assuntos que as pessoas temem em falar de tão sérios que são.Para ele não existe bom ou mal gosto,existe apenas a meta de fazer o público rir.Em "Bruno",esse meta é alcançada,deixando o engajamento político e social um tanto apagado,mas ainda está presente.

sinopse:Bruno é reporter gay austríaco,que apresenta em seu país um popular programa sobre o mundo fashion.Após uma série de fracassos,ele é demitido do seu trabalho.Para reconsquistar sua popularidade se tornar "o maior megastar austríado desde Hitler",Bruno viaja aos Estados Unidos,usando todos os artifícios possíveis para alcançar a fama.

Do ponto de vista dramático,a questão da história,"Bruno" apresenta uma grande regressão se comparado a "Borat".O novo filme não possui uma trama fixa,ele apenas vai apresentando as tentativas escrotas do protagonista de se tornar celebridade,sem nenhuma uniformidade ou linearidade entre as situações.Uma pena,principalmente se levarmos em conta o tamanho da equipe de roteiristas do filme.

Outro ponto questionável de "Bruno" é a veracidade das"pegadinhas".Se realmente não forem verídicas,são muito bem encenadas.Algumas cenas como a do desfile de moda,já haviam sido noticiadas pelos tablódides de fofoca há algum tempo,quem já não tinha visto:"Comediante britânico causa confusão em importante desfile europeu".Já outras,parecem um pouco absurdas demais,levando muitas vezes o espectador a pensar "mas que anta esse entrevistado!".Se for tudo mentira,é uma pena,mas não chega a tirar a graça da brincadeira.

Em "Borat" apenas o público estritamente moralista e convencional não aprovou ou não entendeu o humos de Cohen.Afinal,o filme era focado em absurdos étnicos e religiosos.Já em "Bruno",além de piadas sobre negros,muçulmanos e anões,existe um forte cunho sexual na produção.Isso certamente chocou muito mais a platéia."Bruno" e seus órgãos sexuais acrobatas causaram um impacto cem vezes maior na platéia.Mesmo tendo uma boa arrecadação nas bilheterias,o índice de aprovação do público foi bem menor.Basta visitar alguns fóruns de debate e entrar no tópico do filme para constatar isso.

Mesmo não causando o mesmo impacto de seu antecessor,"Bruno" continua sendo uma comédia acima da média,um humor incrivelmente subversivo e inteligente.Piadas que ninguém deveria achar graça,mas que causam gargalhadas compulsivas mesmo naqueles que disseram odiar o filme no fim da sessão.Vassup!!!!!

nota:7,3

Sacha Baron Cohen no Letterman:

Bruno no Letterman:

sábado, 29 de agosto de 2009

VALS IM BASHIR - VALSA COM BASHIR(2008)
diretor:Ari Folman
roteiro:Ari Folman

Há dois anos atrás,DePalma teve seu "momento amador" lançando o documentário falso "Redacted".Segundo ele,nem tudo que ocorre numa guerra é divulgado a população,tudo para não deixar o patriotismo morrer e criar uma falsa sensação de orgulho no povo.Se com esse propósito DePalma conseguiu fazer o pior filme de sua carreira(olha que é difícil),o cineasta israelense Ari Folman constrói uma obra instigante e visualmente incrível,que consegue ser muito mais do que "uma animação bem feita".Embora o bordão já seja batido,"Valsa com Bashir" é um soco na boca do estômago de quem o assiste,90 tensos e maravilhosos minutos que marcaram para sempre o cinema do Oriente Médio.

Junho de 1982.Após o assassinado de Bashir Gemayel,presidente recém eleito,é iniciada a 1ª Guerra do Líbano.Cerca de 3.000 palestinos são mortos no massacre de Sabra e Shatila,na periferia de Beirute.A área do massacre era controlada pelo exército israelense,e dentre os soltados estava Ari Folman.Com 19 anos de idade,Folman não sabia porque estava lá,e até hoje não sabe.E vinte anos após o massacre,ele se da conta de que não se recorda de nada ocorrido na época que esteve na milícia.As imagens de carnificina e desespero que testemunhou quando jovem sumiram de sua ocupada cabeça,que hoje dedica-se ao cinema.Em busca das imagens perdidas de sua memória,Folman procura ajuda de outros ex-combatentes da Guerra do Líbano.Essa pode ser tanto o motivo da produção,como também pode ser a sinopse.

Pense no último documentário animado que você viu.Pensou em algum?Não?Claro,porque "Valsa com Bashir" é único documentário animado já feito.Folman utiliza a animação para representar as atrocidades que presenciou sem criar algo gratuito,dispondo dos ilimitados recursos visuais que a animação permite.Sua equipe cria sequências únicas,que nenhuma imagem filmada poderia recriar.Méritos especiais para David Polonsky,que desenhou a maioria das cenas do filme sem a utilizar a rotoscopia(animação em cima de movimentos).

O que impressiona em "Valsa com Bashir" é a sinceridade de Ari Folman.Ele é um dos poucos diretores que dirigiram filmes baseados em experiência próprias.É admirável sua coragem de colocar o dedo na ferida,relatando o período mais sombrio de sua vida e da história do Líbano,e construindo uma obra pró-paz realmente tocante.

Enquanto a Pixar dispõe de quarenta profissionais para cuidar da iluminação de suas produções,Folman e sua equipe eram em torno de oito pessoas,responsáveis por cada frame do filme.Nada contra a empresa de Wall-e,mas a eficiência dos animadores de "Valsa com Bashir" é impressionante.Aliás,toda a parte técnica do filme é incrível.Aliadas ao bom repertório musical as sequências animadas são hipnóticas.Existem limitações,mas elas são poucas.Nos extras do DvD Folman explica o porque em alguns momentos os personagens andam tão devagar:"Se os personagens andam devagar é porque o orçamento do filme era baixo".Se é assim...

O diretor ainda põe em risco sua obra nos minutos finais.Quando faltam apenas dois minutos para acabar,e o espectador ainda se deleita com os desenhos,a animação é substituída por imagens reais do massacre de Sabra e Shatila SPOILER Um vídeo filmado por um cinegrafista de televisão na época do massacre.São mostradas algumas mulheres palestinas em prantos e depois é focado os cadáveres em meio aos escombros.E para finalizar,o último frame mostra o corpo sem vida de uma criança FIM DE SPOILER.Por mais que o espectador passe um bom tempo após o filme o xingando,Folman ainda está em crédito.O que era uma animação bem feita com músicas bacanas se torna um filme forte sobre a Guerra do Líbano.O público leva um banho de realidade,e sai impressionado com o Massarce de Sabra e Shatila,e não com a animação de Ari Folman.

"Valsa com Bashir",assim como outras obras exemplares,nasceu do desespero de seu criador.Desespero transformado em uma obra de arte original,impactante e indispensável.

nota:8,5

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O SOLISTA - THE SOLOIST(2009)
diretor:Joe Wrigth
roteiro:Suzannah Grant
elenco:Robert Downey Jr,Jamie Foxx

Promessa de Oscar,adaptação de best seller,elenco de ouro,o aguardado The Soloist chega aos cinemas.Com todos estes atributos,o filme ainda conta com Joe Wright na direção,diretor que ganhou meu respeito o ano passado com "Desejo e Reparação".Baseado numa história insossa sobre um "homeless" talentoso,"The Soloist" é um trabalho esforçado de Wright,que mesmo com clichês e soluções fáceis,impressiona.

Joe Wright chama a atenção por ser um diretor old school.Não gosta de edição rápida,nem de recursos mirabolantes de narrativa,ele conserva uma formalidade típica dos grandes diretores de épicos como David Lean e Willian Willer.Suas duas obras de renome até agora são filmes de época."Orgulho e Preconceito",seu primeiro trabalho de destaque é uma competente adaptação do clássico livro de Jane Austen,ambientado no final do séc.XVIII.Depois veio Atonement,obra muito bem filmada com influencia Kubrickana,que ficou marcada como um dos melhores filmes de 2007."The Soloist" é o seu primeiro trabalho ambientado nos dias de hoje,e apesar do enredo fraco,a direção de Wrigth chama a atenção,conduzindo a história de maneira brilhante e fazendo um bom uso da narração em off.

sinopse: Steve Lopez é um cronista de um jornal em busca de inspiração.Um dia ele conhece Nathaniel Aryes,um violinista sem-teto que passa os dias tocando para os indiferentes transeuntes das ruas de Nova York.Lopez descobre que o mendigo já estudou em uma das mais respeitadas escolas de música do país,e devido a sua genialidade desenvolveu esquizofrenia.Ao contar a história de Aryes no jornal,Lopez acaba ficando obcecado em ajudar o novo amigo.

Com a ajuda de bem-bolados recursos visuais,o filme recria muito bem a doença de Nathaniel.O medo,o desespero e a loucura ocasionados pela esquizofrenia são sentidos na pele pelo espectador.Infelizmente,após a esquizofrenia do personagem ser revelada,o ritmo do filme cai em queda livre,tornando os últimos vinte minutos de projeção enfadonhos.

Apesar do tédio ser inevitável em alguns momentos,o filme funciona muito bem com cenas individuais.Lembro-me de três lindas cenas que praticamente valem o ingresso:
Cena Incrível 1:Natahaniel toca em seu violoncelo novo pela primeira vez.Tendo apenas Lopez como platéia,ele toca de baixo de um viaduto em plena hora do rush.A câmera viaja segue as andorinhas pelo horizonte infestado de prédios.A música do violoncelo de Nathaniel se transforma num poderoso som de orquestra...
Cena Incrível 2:Nathaniel quando jovem mora em um bairro pobre da cidade.No quarto escuro,á luz trêmula do fogo,ele toca Bethoven no violoncelo.
Cena Incrível 3:Lopez leva Nathaniel para um concerto da Orquestra local.Ao ouvir a música,a câmera foca seus olhos marejados,e depois,mostra uma explosão de cores na tela que alternam conforme a música.Parecido com o que Kubrick fez em 2001

Além da direção de Wrigth,o elenco também brilha.Jamie Foxx,mais uma vez interpretando um músico deficiente,faz um trabalho magnífico.Downey Jr.,um dos atores favoritos do cinema pipoca,também desempenha seu papel com perfeição,não perdendo nada para o colega.Um aspecto interessante do filme é a ínfima participação dos coadjuvantes.Quase toda história é focada apenas nos dois protagonistas,sem acrescentar subtramas e personagens secundários.

"O Solista" possui aquele lado cinema auto-ajuda,querendo passar uma "lição de vida" para o espectador.Deve-se esquecer esse lado da obra,e prestar a atenção na música.O filme retrata toda a aura que envolve o músico quando ele toca seu instrumento com paixão.Além de também ser um ode a música erudita,tão esquecida nos filmes atuais.

nota:7,2

O verdadeiro Ayers tocando(incrível):

domingo, 9 de agosto de 2009

ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO(2008)
diretor:José Mojica Marins
roteiro:José Mojica Marins,Dennisson Ramalho
elenco:José Mojica Marins,Jece Valadão,Milhem Cortaz

Criado em meados da década de sessenta,Zé do Caixão é um dos mais célebres personagens genuinamente brasileiros do cinema nacional.Criado e interpretado por José MojicaMarins,a funesta e irreverente figura do coveiro de unhas longas começou como um projeto de cinema."A Meia Noite Levarei Sua Alma" é o primeiro dos filmes protagonizados e dirigidos por Zé.Foi o primeiro filme de terror brasileiro,e Mojica orgulha muito esse título.A 'fita' é revolucionária,foge de todos os padrões do horror convencional,cria um personagem totalmente original e adiciona elementos da cultura brasileira ao gênero,como crendices e superstições tipicamente brasileiras.Carlos Reinchbah,outro diretor nacional,é um dos reconhecem o feito do colega:
"É o maior marco do cinema instintivo,um filme antropofágico e debochado.Poucas vezes vi uma obra tão brasileira."

Ainda nos anos sessenta,Mojica dirigiu outros três filmes do coveiro:"Esta Noite Encarnarei Seu Cadáver","O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Ritual Dos Sádicos".Com a chegada da década de setenta o diretor caiu nas pornochanchas.Filmes eróticos exibidos nos cinemas,com seus títulos bizarros e atores globais ainda desconhecidos.Não sou um grande fã dessa fase do cinema brasileiro,deve-se lembrar que até hoje muitos associam o cinema nacional a putaria de baixa qualidade.Talvez Mojica concordasse comigo,pois fez questão de não assinar seu nome nos créditos na maioria das pornochanchadas que trabalhou.Mesmo assim,ainda comandou outros três filmes do Zé do Caixão:"O Exorcismo Negro","A Estranha Hospedaria Dos Prazeres" e "Delírios de Um Anormal".Como não vi nenhum não posso atestar a qualidade deles,mas muitos afirmam ser os piores de sua carreira.

Infelizmente estamos falando de Brasil,um país que nunca valorizou sua cultura.A figura de Zé do Caixão se tornou piada,e para se sustentar,Mojica virou figura frequente dos programas de auditório que entopem o esgoto que é a televisão brasileira,sentando ao lado de Maquito,Tiririca,Pedro de Lara e outras figuras assustadoras.Enquanto isso no exterior,Mojica e seus filmes eram motivos de adoração por cinéfilos amantes do horror.Com o nome "Coffin Joe",o mestre foi redescoberto pela crítica estrangeira,sendo elogiado por revistas como Cult Movies,Billboard e até Cahiers do Cinema.Recebendo os merecidos aplausos que nunca recebeu no seu país de origem.

21 anos depois de seu último filme de cinema,o porno "48 Horas de Sexo Alucinante",Mojica finalmente retorna.Com "Encarnação do Demônio" ele fecha a trilogia composta por "A Meia Noite..."e "Esta Noite...".Com a ajuda de grandes amigos e de figuras da nova safra do cinema brasileiro,Mojica segue a macabra trama do coveiro em busca do filho perfeito.Mais ambicioso,mais sangrento,mais sádico.O filme é o sonho do diretor de 73 anos,que conta com o maior orçamento de sua carreira e também com a apoio dos fãs jovens e da crítica especializada,que antes tanto o massacrou.

sinopse: 40 anos preso numa cela para doentes mentais do presídio local,Zé do Caixão finalmente é libertado.Com a ajuda de seu fiel companheiro Bruno e de seus novos capangas,o coveiro sequestra mulheres pelas ruas da cidade,e depois,as submete a terríveis torturas e testes para achar a mulher que lhe possa dar o filho perfeito.Para barrar seus planos malignos,um padre filho de uma antiga vítima e o capitão da polícia vão a caça do coveiro.

A sensação que o filme dá é que faltou alguém para segurar as rédeas da dupla Mojica/Ramalho.Existe uma demasiada preocupação em situar o público na trama dos dois filmes anteriores,abusando dos flashbacks.O roteiro possui uma séria falha na parte do diálogos,problema que ainda era discreto nos filmes anteriores do diretor,agora chega provocar risos.Dennisson Ramalho,o co-autor,é responsável por nada menos que "Amor Só de Mãe",um curta-metragem gore que barbarizou a platéia pelos festivais onde passou.Essa violência extremada está presente em "Encarnação do Demônio",que por pouco não vira um show nonsense de escatologia.

Apesar de tudo,Mojica mostra que sua mente criativa pouco mudou em relação aos anos 60.,e isso é bom.Ele continua firme,defendendo suas idéias a qualquer custo.Ele com certeza não realizou o filme pensando em qual público ele iria atingir,na censura ou na reação dos mais conservadores.Mojica é a prova viva de que mesmo numa produção grande,com a vinheta da Fox Film no início da projeção,o cinema pode ser uma obra direta da mente de seu autor.

O filme conta com uma direção de arte impecável,combinando os figurinos de Hercovich com os soturnos cenários da cidade de São Paulo amaldiçoada.A música é assinada pelo veterano André Ambujanrra,que mais uma vez faz um ótimo trabalho.Dentro do elenco existe uma certa canastrice,provavelmente proposital,por parte de atores como Jece Valadão e Milhem Cortaz(engraçadíssimo).O próprio Mojica não atua,apenas representa de forma normal ele mesmo.

Muitos se queixaram da baixa bilheteria do filme.Após finalmente vê-lo,vejo que não houve nenhuma injustiça.Ninguém em sã consciência deve esperar uma boa bilheteria de uma obra extrema como "Encarnação do Demônio".O filme não é ruim,mas é digerível apenas para uma pequena parcela do público,portanto qualquer baixo rendimento da obra pode ser justificado.

Mesmo com todos os defeitos,a aura trash proposital,e as atuações canhestas,não há como não admirar a volta de Mojica.Igual a seu personagem,em 40 anos ele não mudou nada.Talvez muitos esperassem mais,como eu,mas as principais missões do filme foram completas:Celebrar o legado de Zé do Caixão e fechar a trilogia da Meia-Noite.José Mojica Marins atesta sua posição de honra no cinema brasileiro,e merece ter seus filmes vistos e revistos.

nota:7,0

Zé no CQC: