quinta-feira, 4 de março de 2010

AVATAR(2009)
escrito e dirigido:James Cameron
elenco:Sam Worthington,Zöe Saldana,Sigourney Weaver


Com Avatar,James Cameron prova que sua megalomania não da espaço para fracassos na sua vida como empreendedor.Porque como diretor de cinema,é óbvio que o mesmo não se aplica.Desde que despontou no cinema com o clássico Tela Quente "Exterminador do Futuro",Cameron foi construindo uma carreira baseada em bons negócios,investimentos prolíficos que o fizeram se auto-proclamar "o rei do mundo".É por estes e outros motivos que ele tem lugar cativo no hall dos grandes empreendedores,como Steve Jobs,Bill Gates etc.

Avatar pode ser uma das provas de que imagens valem mais que palavras.Em meio a tanta beleza visual,escondem-se as palavras,o péssimo roteiro.Ver o filme em 3D no cinema ainda pode ser um dos melhores programas do ano.Basta esquecer toda a parafernália tecnológica por trás de tudo,e você será rapidamente absorvido pelas imagens deslumbrantes,que combinadas com a tecnologia 3D se tornam uma experiência divertida e única.

Foram dez anos desde o último lançamento de Cameron,Titanic.Nesse tempo,o "rei" e seus súditos forçaram ao limite todo o tipo de tecnologia em efeitos visuais.Alcançaram a perfeição na técnica de captura de movimentos,que consiste em utilizar movimentos e expressões reais do ator para a criação de um semelhante virtual.No total,foram estimadamente meio bilhões de dólares gastos para as ambições do rei.Enfim,Cameron passou uma década pensando em cada detalhe,esqueceu apenas de uma boa trama e um roteiro decente para sua criação.

Jake Sully é um ex-combatente que ficou paraplégico durante uma guerra terrestre.Ele é convidado a substituir seu irmão num missão chamada Avatar,onde é criada uma réplica sua em forma de um Na´vi,alienígena azul que habita uma lua distante chamada Pandora.Enquanto seu corpo hiberna na base do exército,sua versão alien corre livre pelos campos pandorianos.Pode parecer piada,mas o mesmo acontece com o avô dos pequenos espiões em "Pequenos Espiões 3".

Como já era esperado,Sully apaixona-se por uma Na-vi e se torna parte da estranha tribo.Estranha nem tanto.Os índios azuis são meras adaptações dos índios terrestres,com costumes e modo de vida muito próximos das tribos africanas.Basta adicionar as florestas luminescentes,as aves de montaria e a fisionomia grande e azulada dos Na´vi.

Cameron então coloca os terráqueos para incendiar os azulzinhos,que possuem em sua tribo um valioso minério cobiçado pelo planeta capitalista.A partir daí começam a surgir as 'mensagens' anti-belicistas e ecológicas,a fim de acrescentar uma falsa profundidade a trama.Mas nada disso faz Avatar fugir de um inevitável julgamento: ele é um filme pouco criativo. Reunindo idéias já testadas por blockbusters do passado,tudo o que Cameron faz é justificar os efeitos especiais,de uma forma que faça com que as pessoas não parem de ir ao cinema.

Na busca por essa trama acessível e simplificada para o prazer do grande público,o filme cai em outra perigosa armadilha: a infantilização.Tudo é inocente,pueril e incrivelmente infantil.Inclui diálogos do tipo:"Eles esmagaram sua cabeça feito jujuba" e o velho maniqueísmo desse tipo de filme,como aquele clássico combate entre o mocinho heróico e espirituoso contra o vilão sem escrúpulos com um corte no rosto.

Estaria errado se dissesse que Avatar é um filme insignificante,assim como estaria errado se dissesse que se trata de um bom filme.Verdadeiras revoluções no cinema aconteceram com obras que marcaram pela sua totalidade,incluindo suas inovações técnicas.Como aconteceu com a obra máxima e eterna 2001,la nos longínquos anos sessenta.

James Cameron abriu portas para que diretores mais competentes pudessem realizar obras melhores com toda a tecnologia que ele acaba de lançar.Por esse sentido,o filme tem sua importância comprovada.Avatar ainda fez o favor de adicionar um gás a indústria cinematográfica,fazendo girar mais dinheiro e projetos ambiciosos.Cameron merece aplausos sim,mas criatura azul por criatura azul,ainda prefiro os Smurfs.

nota:5,5

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

THE HURT LOCKER - GUERRA AO TERROR(2008)
diretor:Kathryn Bigelow
roteiro:Mark Boal
elenco:Jeremy Renner,Anthoni Mackie


Não é fácil definir a guerra em um filme.Por isso,cada obra do gênero possui seu olhar sobre o conflito armado que retrata.Recentemente,o mestre Eastwood inovou ao contar os dois lados de uma mesma guerra partindo do ângulo de seus soldados(Cartas de Iwo Jima e Conquista da Honra).Spielberg e Oliver Stone gostam de transformar a guerra num espetáculo pirotécnico,onde é ressaltado o brio e a glória dos combatentes.(O Resgate do Soldado Ryan,Platoon).Kubrick gostava de mostrar os soldados aprisionados pelo quartel,traçando secos retratos sobre a vida nos campos de batalha(Nascido Para Matar,Glória Feita de Sangue).Já o indiscutível maior filme de guerra de todos os tempos,Apocalipse Now de Coppola,noticiava a presença de um inimigo invisível nos fronts,a loucura,"The madness". O combate armado é visto como um vício forte e letal,uma droga.Assim como é dito nos segundos iniciais de "Guerra Ao Terror",filme dirigido por Kathryn Bigelow com nove indicações ao Oscar e a certeza de que entrara para história.

Existem poucas obras dignas de menção sobre a guerra do Iraque.Alguns diretores famosos já se aventuraram no tema,ás vezes bem-sucedidos,como Ridley Scott em "Rede de Mentiras",outras vezes extremamente infelizes,como DePalma no amador "Redacted".Porém nenhum filme havia sagrado-se definitivo,e a guerra do Iraque ainda não tinha seu representante ideal no cinema.O motivo talvez fosse o receio de alguns em falar sobre um assunto ainda tão fresco,que ainda mancha a bandeira americana.Ninguém esperava que uma obra independente,sem ambições de mercado e dirigido por uma mulher,viria a ser o retrato final e definitivo da guerra no Iraque.

A trama segue os últimos dias de recrutamento de um esquadrão especializado em desarmar bombas nos campos inimigos.O foco se mantém sobre três soldados de características e objetivos distintos.Owen,Sanborn e James.Apesar de sua experiência,James é novo na equipe.Chamado para substituir um veterano recém-morto em atividade,ele causa desconfiança no grupo,apesar de sua inegável competência.São retratadas a convivência e as arriscadas missões do esquadrão,que em breve terão seu tão esperado descanso.Esperado para alguns,aqueles que não estão absortos pelo vício da guerra.

Assim como Coppola e Kubrick,Guerra ao Terror valoriza os aspectos psicológicos dos soldados.Os conflitos da trama são movidos pelos temperamentos adversos dos recrutas,que acabam sendo obrigados a encontrar a amizade num campo de batalha.Um dos mais belos questionamentos feitos no filme é: Como pessoas que se odeiam podem lutar pela mesma bandeira? A sensação de alienamento dos recrutas é retratada com igual sensibilidade,mostrando os soldados como jovens que simplesmente não sabem ao certo porque estão ali.Para aqueles que buscam tiroteio e explosões desenfreadas,se surpreenderão com os momentos tocantes e o constante uso de silêncios nas cenas.

Guerra ao Terror também não deixa de lado a as sequências de ação cativantes,com esplosões e bons efeitos especiais.Quando os recrutas se veêm em situações de vida ou morte,a tensão é elevada a quinta potência,e as cenas tornam a distração uma tarefa quase impossível.E mesmo com as explosões e tiroteios presentes,cada uma delas vem com uma razão,um motivo dramatúrgico,não apenas pirotecnia para enfeite.

Como é de praxe em todo filme que dá atenção maior aos aspectos psicológicos,as atuações são de uma importância crucial.E também nesse aspecto,Guerra Ao Terror surpreende,contando com um elenco que mescla protagonistas anônimos com coadjuvantes famosos.O principa destaque é Jeremy Renner,que aflora toda a arrogância e desobediência de seu personagem,James. Guy Pearce e Ralph Fiennes são os mais famosos,e ambos ironicamente duram não mais do que dez minutos vivos.

Antes,se perguntassem quem era Kathryn Bigelow,muitos diriam que ele era a ex-mulher de James Cameron,hoje ela se tornou a diretora de "Guerra Ao Terror".A senhora de 59 anos assume o filme com uma autoridade invejável,imprimindo um jeito de filmar e conduzir o filme diferenciado.Isso sem falar na experiência corajosa de rodar uma película independente em terras estrangeiras.Embora ainda tenha o ex-marido pela frente,Bigelow possui boas chances de ser a primeira mulher a ganhar um Oscar de melhor direção.

Um sopro de criatividade no cinema independente americano,o filme marca para sempre o cinema e o espectador.Guerra Ao Terror é o cinema e a guerra em suas formas mais puras e cruéis

nota:9,3

domingo, 21 de fevereiro de 2010

A SERIOUS MAN - UM HOMEM SÉRIO(2009)
direção e roteiro:Joel e Ethan Coen
elenco:Michael Stuhlbarg,Richard Kind,Fred Melamed

Até quando um homem pode suportar os infortúnios da vida de maneira centrada e correta? A partir de que ponto ele deixará de ser "Um Homem Sério"? Estas já são perguntas frequentes na filmografia dos irmãos Coen,não apenas no seu novo trabalho,cujo irônico título parece sintetizar tudo o que eles fizeram antes.Forçando ao máximo a paciência de seu protagonista,pregando peças no espectador a todo momento,ironizando a ilusão da família feliz,"Um Homem Sério" é a mais pura essência de Joel e Ethan Coen.

Desde as primeiras civilizações,dentro de uma família,a figura mais importante é o patriarca.Soberano nas decisões da casa,o pai comanda os rumos de seus consanguíneos.Larry Gopnik é um professor de física,casado e pai de dois filhos,vivendo na classe média dos anos 70.Contrariando o que se espera de sua posição,Gopnik vive como um mero coadjuvante na vida de sua família.Sua mulher o despacha de casa para casar com um viúvo sessentão que insiste num "divórcio ritualístico".E os infortúnios da vida parecem não ter mais fim.E quando nosso herói parece estar a beira da explosão,ele prefere buscar ajuda na religião que fundamenta sua família,o judaísmo.Ele está aprisionado pela sua passibilidade,é apenas um homem dócil totalmente incapaz de agir.E assim,indo ao encontro de rabinos e advogados,Gopnik se prepara para um futuro obscuro e incerto.

Larry é o retrato do que seria um homem perfeito para a sociedade.Incapaz de reagir a qualquer situação,conformando-se em ter um emprego estável e uma família "feliz",mesmo que todos vivam em total desarmonia e discórdia entre si.É o tipo de personagem preferido dos irmãos Coen,que fazem de "Um Homem Sério" seu filme mais autoral.Joel e Ethan cresceram nos anos 70,num subúrbio em Minneapolis,filhos de mãe e pai judeus.Desfrutando de certa liberdade criativa,os diretores ironizam os valores religiosos os quais foram submetidos na adolescência,fundindo o dogmatismo com toda a imoralidade e liberdade dos 70.E é aí que nasce uma das melhores cenas do filme,quando o filho de Gopnik atravessa o dia de seu "bar mitzvah" sob o efeito de alguns cigarrinhos de maconha,divididos secretamente com seu amigo de escola.

Uma das críticas mais frequentes vinda do público sobre os filmes dos Coen,é a resistências dos dois em aceitar apenas um gênero.Uma comédia dos irmãos,nunca é um filme para você cair da cadeira,pois além da fuga do humor fácil e burro,o drama e a reflexão são sempre acionados,por mais cômicas que as tramas pareçam ser."Um Homem Sério'' não quer mesmo ser levado sério a todo momento. Um exemplo é a incompreensível abertura do filme.Mudando o formado da tela, é contada uma bizarra história de terror,sobre um falecido que visita uma família judia na era medieval.Logo após a parábola,os créditos e a música sugerem que veremos pela frente um filme de suspense sobre fantasmas judeus e antigas maldições,mas logo entra em cena o filme descrito na sinopse.

Tecnicamente irrepreensível,"Um Homem Sério" conta com excelentes atuações.A começar pelo protagonista,Michael Stulhbarg que representa a fragilidade e passividade em pessoa.Por motivos não conhecidos,Stulhbarg não foi indicado ao Oscar deste ano.A fotografia elegante é feita pelo veterano Roger Deakins,antigo colaborador dos Coen,e já indicado a 8 Oscar pelo seus brilhantes trabalhos.A trilha sonora é composta por um fina seleção de hits dos anos 70,que inclui a fantástica e esquecida banda Jefferson Airplane.

Para a surpresa de muitos,"Um Homem Sério" figura entre os dez indicados a melhor filme no Oscar 2010.Muitos podem considerar que só o nome dos irmãos na direção pôs "Um Homem Sério" na lista de indicados.Ledo engano.O filme é a reunião dos elementos essenciais do cinema dos diretores:humor negro,final aberto,personagens peculiares... Um híbrido entre o drama sólido de "Fargo" e a comédia obscura de "Queime Depois de Ler".Por tudo isso e mais um pouco,é uma grande felicidade ver "Um Homem Sério" na lista de indicados,mesmo que as chances de ver o filme levar o prêmio sejam zero.

Para muitos,pode até parecer exagero,mas acredito que "Um Homem Sério" tem todo o direito de figurar entre as cinco melhores realizações de Joel e Ethan Coen.Autoral,ousado,criativo,engraçado,comovente e acima de tudo,sincero.Uma obra candidata a cravar sua bandeira no restrito território de filmes cults,que chamam a atenção não por outra coisa a não ser por serem únicos.Aceite o mistério.

nota:9,0

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

INVICTUS(2009)
diretor:Clint Eastwood
roteiro:Anthony Peckham
elenco:Morgam Freeman,Matt Damon


Mais uma vez,Clint Eastwood! Com seus já avançados setenta anos de idade continua sendo um dos diretores mais 'trabalhadores' do cinema atual.Agora,será que os filmes que o velhinho lança quase que anualmente são realmente bons? Com "Gran Torino", Eastwood relembrou seus diais de Dirty Harry num marcante drama sobre racismo,em seu lançamento mais recente,ele investe mais uma vez no tema,agora em proporções globais."Invictus" conta a chegada de Nelson Mandela no poder da África do Sul,o fim do apartheid e o renascimento de um time de rugbi.

É difícil fazer um filme sobre Nelson Mandela e fugir de alguns clichês pentelhos,como discursos sobre paz e igualdade,personagens caricatos e toda a pompa dos filmes do tema.A versão diretor de Eastwood,aquela que passa milhas distante da sua versão ator,gosta de cinema sério,visando temas sociais bastante discutidos em congressos pela paz mundial.Invictus não foge de nada disso,mas as diversas qualidade técnicas e a competência de Eastwood acabam por contornar o cansaço da fórmula.

"Invictus" foca o período inicial da presidência do carismático líder negro,quando o país passava por tempos difíceis(passa até hoje) e toda população esperava de medidas imediatas para o combate aos emergentes problemas sociais do país.Mesmo arriscando sua popularidade,o presidente optou por incentivar e investir o principal time de rugbi da África do Sul,o Springboks,que em breve disputaria a copa do mundo.Além de ser um esporte jogado quase que unicamente por brancos,o time era um símbolo da dominação Afrikanner,tendo sua extinção defendida por muitos negros.Mandela tinha visão diferente.Ele acreditava que o rúgbi pudesse resgatar o sentimento patriótico nacional,além de promover a união dos dois lados étnicos do país.

Mesmo não conseguindo fugir do comum,o foco escolhido pela história já vale alguns pontos.Com um roteiro impecával,a narrativa possui ritmo fluído e a atenção do público é mantida até o fim. No quesito veracidade histórica,o filme está livre de absurdos ou furos nos momentos decisivos.Mostrando que o fato como realmente aconteceu está ali,e as filmagens originais da época não deixam mentir.Ou seja,"Invictus" serve para a sala de aula também.

Quem fica com o diícil posto do presidente sul-africano não poderia ser outro pessoa além de Morgan Freeman.E ele não decepciona,mas também não impressiona,o inglês tipicamente africano ele faz muito bem.Como capitão do time de rúgbi,Matt Damon faz um excelente trabalho,mostrando que vem melhorando a cada filme que faz.A fotografia de Tom Stern e a trilha sonora Kyle Eastwood são os elementos que consolidam Invictus como uma bem feita realização cinematográfica.

Apesar de ser o típico filme de Oscar,"Invictus" não conseguiu mais que duas indicações, uma para Morgan Freeman(chances razoáveis) e outra para Matt Damon(nenhuma chance) .Calcado de inteligência e certo conservadorismo,Invictus é um filme que tem a cara do diretor Clint Eastwood.Possui história e cinema bem delineados e surge como algo a mais,mas nada de novo.

nota:7,7

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

THE FANTASTIC MR.FOX
O FANTÁSTICO SR. RAPOSO(2009)
diretor:Wes Anderson
roteiro:Wes Anderson Noah Baumbach
elenco:George Clooney,Merl Streep,Bill Murray

Como convencer o público adulto a assistir uma animação também destinada a ele? Parece uma tarefa difícil,mas talvez o jeito mais fácil seja deixar o filme convencê-lo.É justamente isso que acontece com qualquer um que se depara com "O Fantástico Sr. Raposo",a animação convence,encanta e surpreende.O título e a temática parecem dignos de uma aventura destinada a crianças,com personagens e situações infantis,mas basta acompanharmos um tempo na vida do Raposo macho que tem como função sustentar a esposa e o filho e dar-lhes uma vida decente,para logo enxergarmos os traços humanos naquele animal silvestre vestido com terno e gravata.

Triste com a situação precária da família,Sr.Raposo decide mudar de vida comprando uma casa nova em uma grande e bonita árvore.Mesmo tendo um emprego fixo num jornal,ele é mal-remunerado,e Raposo se vê obrigado a retornar as suas raízes,saqueando as fazendas de três malvados fazendeiros da região.Ao tomarem conta do prejuízo,os humanos avançam contra os seres que vivem debaixo da terra com explosivos e escavadeiras,pondo em risco a vida de Sr.Raposo e sua família.

Qual outro cineasta faria isso se não Wes Anderson? A animação é seu sétimo filme e o primeiro nesse formato,e ainda assim,Mr.Fox não foge muito do estilo Anderson de filmar e ser.A primeira vista,suas obra não parecem nada além de 'estranhas'.E realmente são,por que é na capacidade de confundir e estranhar que Anderson busca a compreensão para os mais diversos conflitos humanos.Seus filmes são geralmente rotulados como comédias,devido a um humor bem peculiar que Anderson geralmente imprime nos seus dramas.Mr. Fox talvez seja o filme mais 'fácil' de ser dirigido de toda sua filmografia,as piadas são mais convencionais e o intuito de fazer uma animaçaõ 'para família toda' é claramente percebido

Esteticamente,Mr.Fox também possui a marca de Anderson.Os quadros estáticos e minimalistas marcam presença mais uma vez,embora agora sejam em formato stop-motion.Que é feito de forma artesanal e manual,uma dádiva em tempos onde os desenhos são todos computadorizados.Também chama atenção a fluidez dos movimentos,que normalmente ficam um pouco travados com uso dessa técnica.

Para dublar os bonecos,Anderson optou por rostos conhecidos mesclados com velhos colaboradores seus.George Clooney e Merl Streep são o casal de raposas.O grande Bill Murray aparece pela quinta vez em um filme do diretor,desta vez no papel de um hilário texugo.Jason Schwrtzman,Michael Gambon e Willian Dafoe completam o elenco.O filme conta também com uma inventiva trilha sonora de Alexandre Desplat,e a participação especial do vocalista da banda Pulp cantando uma divertida música non-sense.

Após conquistar uma legião de fãs de cinema independente,Wes Anderson busca o reconhecimento do grande público com Mr.Fox.E sendo ou não um sucesso,ele brinda o espectador com uma refinada animação,que reafirma seu estilo e reinventa o cinema stop-motion.A tragédia humana é representada pelas raposas de uma forma mais verossímil e interessante do que muitos dramalhões com atores reais.Um novo candidato a clássico cult.

nota:8,7

domingo, 31 de janeiro de 2010

SEDE DE SANGUE - BAKJWI(2009)
diretor:Chan-Wook Park
roteiro:Chan-Wook Park,Seo-Gyeong Jeong
elenco:Kang-Ho Song,Ok-Bin Kim


Sempre gostei de diretores que criam uma identidade dentro de seus filmes.Diretores que conseguem reinventar e ainda possuir uma marca forte.O coreano Chan-Wook Park criou a sua logo no seu primeiro filme,e continuou chamando os holofotes até 2003,quando lançou o aclamado,amado,odiado e detestado Oldboy.E estes mesmo adjetivos servem para ilustrar a reação do público com o resto de sua filmografia.Mas Park não pretende apenas ser controverso,sua visão lúdica e violenta do cinema é uma luz de originalidade e reinvenção no aparente marasmo do cinema mundial.Sede de Sangue,não poderia deixar de representar tudo isso.

A trama reinventa a fórmula clássica do vampirismo,de uma maneira irônica,surreal,erótica e mórbida.Tudo começa com um padre bom-samaritano que trabalha num asilo,onde convive diariamente com a morte e a dor.Cansado de sua rotina,o padre se torna cobaia de um experimento em busca da cura para um virús letal que assola uma longínqua comunidade.Nenhum dos 50 voluntários do estudo sobreviveu,e o mesmo parecia acontecer com o protagonista.Quando já é dado morto pelos médicos,ele misteriosamente ressuscita e começa a ser recebido como um santo por onde passa.Como tempo,o padre percebe que apesar de são,há algo diferente em si mesmo que o mantém vivo.O sangue.

Após o experimento,o protagonista é perseguido por uma desesperada mãe em busca da cura para a doença do filho.Convencido a acompanhar o doente,o padre acaba conhecendo uma frágil moça que todos dizem ser a esposa do enfermo,mas que na verdade é tratada por todos como uma escrava.Ignorando todos os preceitos de sua formação católica,o padre é envolvido pela misteriosa mulher.Queira me desculpar,mas é inevitável a comparação com Crepúsculo,insuportável febre adolescente da atualidade.Enquanto o casal dos livros de Stephanie Meyer contempla a castidade,o recato, e a pureza dos valores juvenis,os vampiros de Park invocam a sexualidade de maneira quase compulsiva.Os desejos mais lascivos do casal são despertados e postos para fora de maneira animalesca,assim como a sede de sangue.

A trama já é bastante atípica para considerarmos Sede de Sangue um filme diferenciado.Mas ainda não é o bastante para um diretor que adora ir pela contramão.As escolhas de Park nunca são as comuns,seja nos rumos do roteiro ou até no jeito de filmar.Ele raramente opta por enquadramentos simples e frontais,preferindo fazer a câmera 'viajar' pelo cenário,sempre ricamente composto.

Mesmo não sendo o seu melhor filme,Park consegue fazer algo totalmente diferente de trabalhos anteriores,mas sem perder suas características essenciais.E ainda com sua narrativa irregular,Sede de Sangue é um filme que seduz pela sua estética e trama inusitadas.Sangue novo e fresco para o cinema.

nota:8,5
PRECIOUS(2009)
diretor:Lee Daniels
roteiro:Geoffrey Fletcher
elenco:Gabourey Sidibi


Sensacionalista,maniqueísta e insuportável.Esses são um dos poucos adjetivos que cabem há uma certa senhora afro-americana que domina os televisores norte-americanos.E parece que agora,Oprah Winfrey chegou aos cinemas.Imagine aquele talk-show feito para donas-de-casa,insuportavelmente sensacionalista,mostrando no palco uma adolescente de 16 anos,obesa,analfabeta,grávida,pobre e aidética.Agora converta esse programa para um filme,e pronto,temos "Precious".

Tudo o que vemos na tela é uma excreto de imagens desfocadas mostrando a tragédia,somente ela e mais nada.Provoca repulsa a forma como a história desdobra um amontoado de infortúnios na vida de um bando de meras caricaturas de suburbanos nova-iorquinos,proferindo intermináveis diálogos no idioma "motherfucker".

Não digo que a trama é impossível,longe disso,a forma como o filme estabelece a fragilidade dos sistemas assistencialistas é perfeitamente crível.Só que isso é posto estrategicamente no filme como uma forma de acrescentar mais tragédia,mais sentimentalismo gratuito,mais uma forma de sugar as lágrimas daquela dona-de-casa que está na primeira fila do cinema por recomendação do último programa da Oprah.

Tecnicamente,Precious também surpreende.Lee Daniels,o diretor debutante,não faz mais nada além de lembrar o pior de Spike Lee.Não basta uma fotografia chique,ora desfocada ora escura,se o trabalho falha em (quase) todos os outros aspectos.Ainda há as atuações,que são competentes,mas que acabam sendo comprometidas pelo próprio texto.

Se este filme estivesse lá na fundo da prateleira da locadora,esquecido e coberto de poeira,eu até entenderia.Mas Precious tem sido um dos grandes destaques nos noticiários cinematográficos. Acumula 44 prêmios em festivais mundo afora,incluindo Globo de Ouro,Sundance e SAG´s.Além de 6 indicações ao Oscar desse ano,contando com melhor filme.Enfim,Precious vem sendo reconhecido como um exemplo de superação e luta,mas será que é um exemplo de bom cinema?

Antes de assistir,eu já estava com um pé atrás.Isso é um grande erro que cometemos,assistir o filme com preconceitos,devido ao cartaz,sinopse,alguma crítica negativa,ou até o trailer.Porem não vejo como eu poderia odiar um pouquinho menos Precious.Lenny Cravitz está nele!Ele tem umas músicas legais! Enfim,nada pode salvar um filme que está fadado a ser o que é desde sua idéia original.Nada salva um filme que nunca deveria ter existido.

nota:1,0