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sábado, 17 de abril de 2010

A França em 2 Filmes

DANTON(1983)
dirigido por Andrzej Wajda
escrito por Jean-Claude Carriére e Jacek Gasiorowski
estrelado por Gerard Depardieu e Wojciech Pszoniak

Como uma das uma principais figuras da fase inicial da Revolução Francesa,Georges Jacques Danton tem sua importância para a história da França inegável.Coube ao polonês Andrzej Wajda tornar a vida do revolucionário uma obra de mesma relevância ao cinema.Escrito por um dos mais geniais roteiristas do cinema,Jean-Claude Carriére, e estrelado pelo maior ator francês,Gerard Depardieu,o filme busca uma representação minimalista de uma das maiores mudanças de rumo da história mundial.

O ano é 1793.Com a revolução já instaurada,o embate ideológico entre nobreza e burguesia foi deixado de lado,enquanto rixas entre membros de mesmo partido tomavam conta do cenário político francês.Os jacobinos,partido composto pela baixa burguesia radical,ascendem ao poder liderados por Robespierre,conhecido por sua tirania e impopularidade.Inicia-se uma nova fase da revolução,a chamada "Terror".

Opositores ao governo era sumariamente perseguidos e guilhotinados pela cúpula governamental.Danton,membro do mesmo partido,contestava o autoritarismo vigente e ainda contava com o apoio opinião pública.Com ousadia e perspicácia,ele trava um longo embate com Robespierre,que agora teme a fúria do povo.

Com grandes atuações e um grande texto,Danton é uma realização formal e certeira.Wajda,na ativa até hoje, expressa todo o talento que o fez ser reconhecido como um dos principais diretores europeus.Sempre teve preferência por filmes históricos e verossímeis,com reconstituições perfeitas de cenários e figurinos.Aliado ao roteiro de Carriére,surgem algumas cenas antológicas,como os debates na Convenção jacobina e as decapitações na guilhotina.

Mesmo lembrando suas qualidades,é impossível ignorar os vícios de Wajda.Danton é também um filme frio,que pouco cativa o espectador.Dramaticamente,ele está todo concentrado em longos debates de linguagem rebuscada,que muitas vezes só fazem sentido para quem estuda a Revolução Francesa.

Mesmo assim,Danton é até hoje o melhor filme sobre este tão importante capítulo da história da França.

nota:8,0


GERMINAL(1993)
dirigido por Claude Berri
escrito por Arlette Langmann e Claude Berri
estrelado por Gerard Depardieu e Miou-Miou

País-modelo das leis trabalhistas,a França deve isso aos grevistas que invadiam suas ruas meados do século XIX,movidos pela fome tanto de comida quanto de justiça.Emile Zolá baseou-se na história desses trabalhadores para escrever um dos maiores romances do país,Germinal.Décadas depois,o livro é trazido ao cinema por Claude Berri,lendário diretor patriota que assume a responsabilidade de manter toda a epicidade e grandeza da obra original.

Desde o início,o filme nos da uma sensação de imersão.Os ambientes hostis e insalubres onde se desenrola a trama,são reproduzidos de forma magnífica por uma composição técnica irrepreensível.Todas as cenas em que os trabalhadores entram nas assombrosas minas subterrâneas,poderiam muito bem compor uma antologia das melhores cenas já produzidas pelo cinema francês.

A história tem como ponto de partida o encontro da família de Depardieu com um homem errante em busca de trabalho.Ao juntar-se a massa mineradora da região,o homem assume o posto de líder revolucionário dos trabalhadores,esfomeados e indignados com a postura de seus chefes.Com um panfletarismo moderado,o filme retrata as novas ideologias reacionárias que surgiam naquele momento,como o marxismo e o anarquismo.

A fidelidade quase absoluta que Berri tem com a obra original de Zolá tem pontos positivos e negativos.Germinal acerta em manter a atmosfera e a ambientação do livro,mas erra ao não se desprender da trama novelesca do mesmo.O roteiro e suas reviravoltas lembram unicamente um romance clássico,ignorando as adaptações necessárias que o cinema exige.

Berri sempre foi conhecido por comandar grandes produções.Germinal é até hoje um dos filmes mais caros já feitos a França,assim como faturou alto nas bilheterias da época.Objeto de estudo e admiração,Germinal não é uma obra perfeita,mas mantém-se como um dos mais cultuados filmes franceses.

nota:9,0

domingo, 21 de março de 2010

UN PROPHÉTE (2009)
dirigido por Jacques Audiard
escrito por Thomas Bidegain e Jacques Audiard
estrelado por Tahar Rahim e Niels Arestrup

Nem todo filme precisa revolucionar um gênero para ser memorável.Muitas vezes,basta apenas alguma originalidade aliada a boa técnica.Jaques Audriard,diretor francês pouco conhecido,faz exatamente isso."Un Prophéte" é um filme de cadeia,daqueles tradicionais,com direito a linchamentos,selvageria,gírias e sexo oral forçado.Mas a competência de Audriard ilumina o que seria um retrato convencional,e o transforma numa experiência impactante e intimista,prendendo o espectador a uma firme corrente carcerária.

Un Prophéte conta a história de Malik,um jovem árabe recém chegado a uma prisão francesa.Sem ter em quem confiar,ele se depara com a cadeia cheia de seus conterrâneos árabes,e uma perigosa gangue de córsegos que praticamente domina e controla todos os detentos.Malik é escolhido pelo ranzinza chefe da gangue para fazer um pequeno serviço: Matar o detento vizinho de cela que o oferece drogas em troca de sexo oral.Sujando suas mãos de sangue,o jovem de 19 anos começa a adentrar no mundo das "grandes raposas" do crime,subindo aos poucos na hierarquia do violento e incerto mundo do narcotráfico.

Naturalmente,começam a pipocar diversas comparações a outros "filmes de cadeia".Como Carandiru e Um Sonho de Liberdade.Um profeta está em uma esfera totalmente diferente,tratando do universo carcerário de uma maneira bem particular.Carandiru possuía toda aquela malícia e precariedade comum as prisões brasileiras,com uma trama de proporções maiores e mais complexas.Já Um Sonho de Liberdade,que conta com uma trama leve e romântica,é o extremo oposto de Um Profeta.

O filme de Audiard é uma retrato verossímil,com uma trama perfeitamente possível e assustadora.A realidade da prisão é vista pelos olhos de um rapaz recém-saído da adolescência,onde passou traficando e consumindo drogas.Contrariando a imagem da França como nação modelo no quesito educação,Malik é um analfabeto,e suas raízes árabes ainda denunciam o palpitante xenofobismo do país.

Assim,o filme abre espaço para diversas discussões,cutucando nas feridas de seu país de origem.Isso é feito sem deixar de lado a trama,cheia de reviravoltas e personagens bizarros já tradicionais numa cadeia.O roteiro,da autoria do próprio diretor,é excelente.Retrata com perfeição as mudanças de comportamento do protagonista,que começa o filme como um jovem assustado,e com o decorrer da trama se transforma num criminoso seguro de suas ações e de seu perigo.Tal aprofundamento psicológico e feito com grande sensibilidade,não limitando-se apenas na ação física.

A caracterização perfeita do personagem principal é também fruto da atuação soberba do ator Tahar Rahim,que encarna todas as cicatrizes e caras feias de um detento.Todo o resto do elenco,composto por atores praticamente anônimos,se saí muito bem.A atenção especial de Audiard com a atuação é notável,assim como em praticamente todos os aspectos técnicos.

Un Prophéte não criou uma nova maneira de se retratar cadeias no cinema.Ele reinventou esse subgênero na França marginal contemporânea,e com exímio talento de seu diretor,conseguiu chegar as principais premiações mundo afora,como também deu uma sacudida no apagado cinema francês.

nota:8,2