sábado, 14 de novembro de 2009

TWO LOVERS - AMANTES(2008)
diretor:James Gray
roteiro:James Gray,Ric Menello
elenc0:Joaquin Phoenix,Gwyneth Paltrow,Vinessa Shaw

Desde o Romantismo Literário do Séc.XVIII até o mais infame filme erótico,histórias de encontros e desencontros amorosos foram exploradas com todas as suas possibilidades,em todas as suas formas,sejam tradicionais ou inusitadas.Talvez seja o mote mais manjado de todos os tempos,seja na literatura,na música ou no cinema,o amor.Pense em todos os triângulos amorosos da sétima arte,sejam eles em comédias românticas,dramas,o que seja."Amantes" não faz nada de diferente,ele recapitula todos os percauços possíveis em um triângulo amoroso,a pieguice romântica,tudo isso de forma como ja se viu diversas vezes no cinema.A diferença aqui,é que temos uma ótica totalmente inédita de expressar o amor na tela.Um novo olhar lançado a esses clichês.Tomando lições de cinema e de dramaturgia,James Gray compõe sua obra-prima

Amantes é o quarto filme de Gray.Não chega a ser um diretor de vasta experiência,mas não é o que possamos chamar de iniciante.Basta reparar a autoridade com a qual ele assume seus filmes,tanto é que muitos já o consideram um dos principais diretores contemporâneos.Seu filme anterior,"Os Donos da Noite" era um drama policial sem ousadia e com um forte apelo comercial,e mesmo assim,ja chamava a atenção a maneira como Gray conduzia narrativa,a claustrofobia imprimida nas cenas tão bem filmadas.Agora,com Amantes,ele pareceu ter muito mais liberdade de criação,realizando um trabalho essencialmente autoral com traços auto-biográficos.

sinopse: Leonard(Joaquin Phoenix) é um perturbado homem solteiro que vive com os pais no subúrbio de Brooklyn.Sofre de transtorno bipolar e por várias vezes tentou o suicídio.Com a doença aparentemente controlada,ele volta a trabalhar na lavanderia de seu pai.Por intermédio dos pais ele é apresentado a Sandra(Vinessa Shaw),uma doce e sexualmente reprimida filha de um amigo da família.Ao mesmo tempo,ele conhece Michelle(Gwyneth Paltrow),uma misteriosa e atraente vizinha cheia de problemas pessoais.Lutando contra seu transtorno psicológico,Leonard se vê numa encruzilhada entre duas paixões.

James Gray parece dirgir seu filme na década errada.Filma cenas românticas do mais puro lirismo,assim como na Era de Ouro de Hollywood.Persegue seus personagens pelas ruas densas e lotadas dos subúrbios,assim como na Nouvelle Vague francesa.Um elemento ou outro ligam "Amantes" ao cinema atual,ao mundo moderno.Isso torna o filme ainda mais contemporâneo e necessário.Por mais anacrônico que seja,"Amantes" não é moda retro.É uma revisitação ao passado que revela o quanto a linguagem cinematográfica mudou e sempre tenderá a mudar.

Joaquim Phoenix enlouqueceu depois desse filme.Deixou a barba crescer,deu um uma vexaminosa entrevista no David Letterman e disse ter abandonado de vez a carreira de ator para se tornar rapper.Engraçado isso.Muitos pensam que a relação ator/personagem é muito distante,e que ator nenhum se preocupa em aprofundar-se psicologicamente no seu papel.Leonard ou Joaquin Phoenix,é um homem doente.Está cansado de viver em seu meio,de trabalhar com a família,está cansado da vida.Leonard/Phoenix,na trama de James Gray,esta dividido em duas mulheres,dois rumos completamente distinos na sua vida.Assim como sua mente,vítima do transtorno bipolar, está divida em dois perfis diferentes,o triste e o ansioso.Afinal,quem é Joaquim Phoenix e quem é Leonard Kraditor?

Se Leonard é o último papel da carreira de Phoenix,ninguém sabe,mas que é o melhor,isso é indiscutível.Não só da sua carreira,mas arrisco dizer que a atuação do maluco é uma das melhores em dramas da última década."Amantes" eleva Phoenix a um novo patamar de grandes atores da nova geração.Todo o elenco é perfeito,e as duas musas(Shaw e Paltrow) esbanjam beleza e o talento.O problema aqui, é que a forma como a trama é desenvolvida somada a maestria da atuação do protagonista,transformam"Amantes" num monólogo,onde estão apenas Phoenix e o público.

No desfecho das idas e vindas de Leonard e suas amantes,Gray opta por um final conformista.Podendo decepcionar ainda mais aqueles que esperavam aquele grande climax do final,recheado de sangue e tragédia.Mas,o cinema imposto por James Gray não baseia-se nisso,seu fundamento são os relacionamentos,os personagens,os seres humanos.

nota:9,0

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

ZOMBIELAND(2009)
diretor:Ruben Fleischer
roteiro:Rhett Reese,Paul Wernick
elenco:Jesse Eisenberg,Woody Harrelson


Resenhando mais um mega sucesso de bilheterias,eu chego num terrir(terror+risadas).Calcado de boas sequências de ação e diálogos rápidos,"Zombieland" segue a linhas dos "filme-homenagem" que estão surgindo na indústria nos últimos anos.Lotado de referências e alusões a clássicos do cinema,o trabalho de estréia de Ruben Fleiscer é uma divertida,descompromissada e mórbida aventura.

sinopse: O mundo foi contaminado por um vírus que transformou toda a população em zumbis.Os Estados Unidos agora é a "Zumbilândia".Como um dos únicos sobreviventes está Columbus,um nerd solitário que possui fobia de palhaços.Ele conhece Tallahassee,um homem destemido e cruel viciado em bolinhos recheados.Juntos os dois atravessam sem rumo a Zumbilândia,até encontrarem Witchita e Little Rock,duas irmãs que vivem de roubos.

Apesar da trama fraca e curta,"Zombieland" possui personagens que através de suas bizarrices conquistam o público.A característica é reforçada pelos ótimos diálogos criados pela dupla de roteiristas novatos Rhett Reese e Paul Wernick.Cada personagem possui um carisma especial que de uma certa forma carrega o filme nas costas.

Muitos realizadores de Hollywood,quando vão fazer uma comédia,conseguem criar uma boa idéia,bons personagens,mas esquecem do principal,as risadas.Com Zombieland,a quantidade de boas piadas e humor negro faz com que o riso seja constante,sem precisar recorrer ao escracho e ao besteirol.Felizmente, "Zombieland" não é "Todo Mundo Em Pânico".

Como se trata de um filme de terror mesclado com comédia,pode imaginar-se que "Zombieland" seja um exemplar trash.Muito pelo contrário,as cenas de ação e sangueira são irretocáveis,com um cuidado todo especial na montagem e na direção de arte.Na sensacional abertura,talvez o melhor de todo filme,vemos uma brilhante sequência exemplificando as regras de sobrevivência na Zumbilândia,e logo a edição de Alan Baumgarten salta os olhos.Um dos grandes segredos para que Zombieland seja tão divertido e seus 80 minutos de duração pareçam meia hora,é o ritmo fluido imposto pelo trabalho de edição.

A escolha do pequeno elenco é acertada.Como protagonista temos Jesse Eisenberg(A Lula e a Baleia),desempenhando mais uma vez um papel de um jovem retraído.Mas,o grande destaque é Woody Harrelson(Assassinos Por Natureza,Onde Os Fracos Não Tem Vez),genial ator veterano mostrando seu excelente timing cômico,as melhores sacadas cômicas acontecem com seu personagem Tallahasse.

Se definirmos "Zombieland" pela sua trama,infelizmente encaixaríamos ele na programação da "Sessão da Tarde".Mas com com boas atuações,edição competente e sarcasmo hilário,o filme se torna uma diversão de qualidade,sem deixar de ser absolutamente descompromissada.Enfim,não exija muito,mas prepara-se para 80 bons minutos de descontração.

nota:7,0

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

DISTRICT 9 - DISTRITO 9 (2009)
diretor:Neil Blomkamp
roteiro:Neil Blomkamp,Terri Tatchell
elenco:Sharlto Copley,Jason Cope


Deve-se definir melhor o que é "um filme independente".Distrito 9 tem a produção de Peter Jackson,uma campanha de maketing de abrangência mundial e um orçamento de 40 milhões de dólares,e mesmo assim vem sendo classificado por muitos como um filme de "baixo orçamento" ou "independente".Pouco isso influi na apreciação do filme,mas certamente deixa o pessoal "câmera na mão,idéia na cabeça" furioso.Entretanto,Distrito 9 é uma boa surpresa.Uma espécie de ficção científica politizada que deu certo.

Indo contra a maré das continuações e remakes repetitivos,Distrito é um filme original de muita criatividade.Dotado de uma trama furadinha mas inventiva,e uma narrativa que possui o valioso poder de prender o espectador,o filme acabou me surpreendendo positivamente

Com excelente recepção da crítica e arrecadação astronômica nas bilheterias,Distrito possui uma idéia original,mas o motivo de seu sucesso vai muito além disso.O projeto do novato sul-africano Neil Blomkamp teve a felicidade de ser 'achado' por Peter Jackson,que e o apresentou a Columbia,fazendo com que "Distrito 9" tivesse uma campanha de marketing viral enorme.E é por esse lado que o cinema caminha e deve caminhar,grandes campanhas de divulgação.Foi assim com "O Cavaleiro das Trevas",e está sendo esse ano com "Distrito 9".

sinopse: Há vinte anos uma enorme nave alienígena paira sobre Joanesburgo,capital da áfrica do Sul.Sem alternativas,os extraterrestres são obrigados a habitar o local,que acaba sendo denominado pelo governo como"Distrito 9".Com o passar do tempo os Alien são marginalizados pela população nativa,além de constantemente sofrerem com governo Sul-Africano.Agora,com a situação incontrolável,os governantes convocam a MNU(empresa privada de armamentos) para levar a habitação alien local para um deserto distante há 200 km chamado "Distrito 10".O encarregado de chefiar a missão é Wikus Van Der Merwe,o atrapalhado sogro do dono da empresa.

"Distrito 9" é uma das raras ficções científicas politicamente engajadas do cinema.A trama é uma clara alusão ao Apartheid,sistema de segregação racial que assolou a África do Sul por 40 anos.Troque os negros por não-humanos e os brancos por humanos e você tem o fundo político do filme.Assim como na história do país,a inferiorização dos aliens também é reforçada pelo governo,controlado por humanos.A trama ousa ainda mais,envolvendo ativistas dos direitos humanos lutando pelos direitos entre espécies.

Blomkamp opta por filmar a inusitada trama com o não mais original estilo "câmera amadora".Mas isso só até a metade."Distrito 9" pode ser dividido em duas partes.A primeira é a explicação,quando o filme assume a forma de documentário falso,mostrando um vídeo institucional da MNU retratando a entrada dos soldados no terreno alien,intercalando com depoimentos de falsos especialistas e habitantes do local.A segunda parte é a ação.O filme se torna uma ficção científica convencional,com um desenvolvimento rápido e diversas cenas empolgantes.

SPOILER
Essa divisão entre duas partes até um certo ponto dá certo,infelizmente a inexperiência de Blomkamp assola os minutos finais.O diretor peca pelo excesso de explosões,tiroteios e reviravoltas equivocadas.Até a chegar ao desfecho ,que não é nada satisfatório,principalmente para uma história que parecia caminhar para um final épico

Tecnicamente o filme não falha.Os efeitos especiais são irretocáveis,assim como o excelente trabalho de maquiagem.Entretanto,um dos melhores setores da produção são as atuações.Com uma trama tão atrativa e tantos efeitos especiais,é comum que esqueçam do elenco.Destaque especial para o novato Sharlto Copley,encarando seu primeiro papel de protagonista.Sem se intimidar com a importância de seu papel,o ator sul-americano tem um desempenho incrível,encarando todas as reviravoltas do humor de seu personagem,Wikus.

Interessante em sua substância,um pouco falho em sua execução,Distrito 9 injeta sangue novo na produção de blockbusters.O diretor Neil Blomkamp e o ator Sharlto Copley lançam seus nomes na indústria e Peter Jackson enche ainda mais os bolsos.

nota:7,2

domingo, 11 de outubro de 2009

ANTICHRIST - ANTICRISTO
diretor:Lars Von Trier
roteiro:Lars Von Trier
elenco:Charlotte Gansbourg,Willian Dafoe

Assim como uma grife de moda estampa sua marca em todos os modelos de sua franquia,Trier faz questão de por seu nome em evidência.O primeiro frame de seu novo trabalho é ,o seu nome em letras grandes e garrafais:¨LARS VON TRIER¨.Com carreira e arrogância já consolidadas no cinema mundial,ele lança sua mais controversa e importante obra."Anticristo" é um filme lírico,repleto de significados nas entrelinhas,recheado de violência gráfica repulsiva,e restrito da um público ínfimo que irá apreciar a obra.Já da pra perceber que é mais um "filme de autor"."Anticristo" não é suspense,não é drama familiar,não é pornô,muito menos terror,"Anticristo" é um filme de Lars Von Trier.

Foi Trier um dos idealizadores do movimento cinematográfico "Dogma 95".Uma série de regras seguidas por um grupo de cineastas europeus na década de 90.O movimento proibia trilha sonora,créditos,luz ou som artificial e cenografia.O objetivo resgatar o que seria o cinema na sua mais pura forma,um forma de protesto contra o uso do cinema como exploração comercial."Anticristo" quebra totalmente os tais "dogmas".O novo filme de Trier é uma experiência de cinema completa e poderosa.Música marcante,fotografia estonteante,câmera voyeurística,créditos grandes e coloridos.Isso sim é cinema na sua mais pura forma!

sinopse:Um casal acaba de perder seu filho de dois anos.Ele(Willian Dafoe) é um terapeuta que torna todas as pessoas ao seu redor seus pacientes.Ela(Charlotte Gansbourg) é uma historiadora que acaba se submetendo a um "luto anormal" após a perda do primogênito.Numa tentativa de acabar com o sofrimento da mulher,Ele leva ela até uma cabana numa floresta distante chamada "Éden”,local onde o "caos reina" .

Certa vez,Kurosawa disse que a primeira cena nunca deve ser a mais elaborada.É difícil pensar em algo do tipo,mas "Anticristo" é um filme que vale pelos minutos iniciais.Trier começa sua história com uma criativa e ousada sequência slow motion em preto e branco.A cena mostra o grande mote do filme:Enquanto o casal transa loucamente no banheiro,o bebê abre a trava do berço,sobe no balcão e se joga pela janela. Trier mira cada detalhe da cena,o pênis penetrando na vagina,um vaso espatifando no chão,o bebê caindo lentamente junto com a neve...Tudo isso embalado por um coral de sopranos cantando suavemente... As reticências servem pra você imaginar a cena em sua cabeça,mas algo assim,francamente, só a mente de Lars Von Trier pode imaginar.

Lançado em esse ano em Cannes,o filme,como se fosse novidade,dividiu a platéia.Ouve uma vitória parcial do time dos que vaiaram,mas os aplausos sem dúvida existiram.A principal crítica do povo que não gostou é a de que o Trier não diz nada.Segundo eles,toda a violência e o sexo do filme são gratuitos,apenas mais um fetiche do diretor obcecado por polêmica.Muito pelo contrário,"Anticristo" tem muito a dizer.

Talvez um defeito do filme seja ele dizer coisas demais.É grande o número de significados,de mensagens e de simbolismos na obra.É apenas uma questão de tempo para que cinéfilos lunáticos comecem a decifrar os enigmas de Trier. O primeiro significado é bem simples."Anticristo" é um manifesto feminista.Uma reflexão sobre a soberania do homem na relação de um casal e o papel da mulher através da história.O filme mostra o anormal luto e comportamento da personagem de Gansbourg como uma forma de revolta contra o papel da fêmea na natureza.Uma reflexão sobre a intransigência do sexo masculino e a eterna representação da mulher como ser sentimental com a única função de reprodução.O fato da floresta se chamar "éden" é uma clara alusão ao jardim da criação,o início da tradição repressora masculina.Ainda no final,a belíssima última cena também confirma a tese.

Anticristo seria um filme muito mais celebrado se Trier fosse mais benevolente com a platéia.Ele simplesmente não perdoa.É como se ele passasse a platéia por uma espécie de processo seletivo,um joguinho para ver quem fica até o fim sessão.É um filme difícil para qualquer espectador,mas é especialmente devastador para as mulheres,principalmente pelas cenas sado-masoquistas com Charlotte Gansbourg.Só na metade da duração,o público tem a infelicidade de conferir a primeira cena de mutilação genital em close do cinema.E o pior é que ela nada acrescenta a trama,que poderia muito bem terminar com menos sangue.

Se o senso artístico de Trier esta a todo vapor,o elenco também está no auge de seu talento.A trama possui apenas dois personagens,interpretados por uma dupla de atores geniais e subversivos,Willian Dafoe e Charlotte Gansbourg.Willian Dafoe já havia passado por uma situação parecida nos anos oitenta,quando protagonizou "A Ultima Tentação de Cristo" de Scorcese,um dos filmes mais polêmicos daquela década.A atriz francesa,Charlotte Gansbourg,se entrega totalmente a sua personagem,incorporando as cenas de dor e sofrimento de maneira impressionante.Mas uma vez se pode perceber a mão do diretor,sempre competente na direção de atores.

Mesmo com sua arrogância e orgulho,Trier admite suas influências.Logo na abertura dos créditos finais ele dedica o filme a Andrei Tarkovsky,falecido diretor soviético que influencia "Anticristo" da cabeça aos pés.Coincidentemente há um més atrás escrevi sobre "Sacrifício",aparentemente a maior espelho de Trier para filmar sua obra.O lirismo,a influência bíblica e o slow motion em preto e branco também são características do filme de Tarkovsky.

Tecnicamente perfeito,escrito e filmado de forma única,"Anticristo" é um filme diferenciado.Talvez um pouco depressivo e sangrento demais,mas isso são apenas ingredientes que fazem da obra uma experiência forte e inesquecível,cinema com C maiúsculo.

nota:8,0

CAOS REINA
Momento "Que Porra é Essa?!" do filme:



quinta-feira, 17 de setembro de 2009

STANLEY KUBRICK - A LIFE IN PICURES(2001)
diretor:Jan Harlan

Cada filme seu era uma revolução.Lançava a obra,e era aquele alvoroço na mídia.As platéias lotavam ou boicotavam a obra.A crítica amava ou apedrejava.Não importa o gênero,nunca existiu reação meia-boca.Pode se dizer que Stanley Kubrick era um diretor de extremos.Quando ele encabeçava a realização de uma obra de cinema,passava anos planejando,reescrevendo o roteiro,decorando a trama,pensando no seu próximo passo.Dotado de um perfeccionismo raras vezes visto na arte,pode se dizer que nunca ninguém levou cinema tanto a sério quanto Kubrick.Frame por frame,nos seus 16 filmes ele conseguiu marcar a história da sétima arte 16 vezes.

O documentário de Jan Harlan esclarece muitas coisas sobre a vida do mestre.Avesso a entrevistas,Kubrick vivia recluso e pouco da sua vida pessoal era divulgado.Associando seu comportamento em relação a mídia com suas obras transgressoras e revolucionárias,muito foi dito que Kubrick era um demente.O documentário mostra o diretor como um cidadão normal que vivia em função de sua família e de sua arte.

Os realizadores tiveram o privilégio de contar com depoimentos do mais conceituados diretores americanos contemporâneos a Kubrick.Polack,Scorcese,Allen dão suas impressões sobre a filmografia do homenageado.Assim como entrevistas com atores já dirigidos pelo mestre,profissionais técnicos e críticos de cinema.A narração fica por conta do mala do Tom Cruise,ator o qual seu melhor trabalho foi a última obra de Kubrick.

Bem editado e embalado pelas trilhas dos filmes do diretor,"Imagens de Uma Vida" é prato cheio para cinéfilos que anseiam em descobrir ligações entre a obra e a vida de Kubrick.Alguns podem até ter sensação de que falta algo,simplesmente pela falta de curiosidades excêntricas sobre o mestre.Mas o essencial e o trivial do que se deve saber sobre o mestre está muito bem representado em agradáveis duas horas.

nota:8,0

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

CIDADE DE DEUS(2002)
diretor:Fernando Meireles,Kátia Lund
roteiro:Bráulio Mantovani
elenco:Alexandre Rodrigues,Jõao Firmino,Matheus Nachtergaele

Há 44 anos atrás,Glauber Rocha criou a tal da "estética da fome".Um olhar cinematográfico especial para retratar a miséria do povo brasileiro.Nos seus filmes,Glauber mostrava sua visão mísera sobre a miséria do sertão nordestino.Desenvolvendo suas tramas em ritmo lento e com atuações teatrais,o baiano promoveu a inclusão da cultura brasileira nos filmes nacionais.Ninguém imaginava,que 37 anos depois a pobreza do povo brasileiro no cinema mudaria tanto.Era difícil prever a mudança que os filmes lançados nessas três décadas provocariam na visão dos cineastas brasileiros."Cidade de Deus",é,na sua estrutura narrativa,o extremo oposto dos filmes de Glauber.E,assim como os filmes do baiano,a obra de Fernando Meireles é um divisor de águas do cinema nacional do século XXI.Um drama envolvente,tecnicamente perfeito,que assim como possui influências claras,é também um poço inovação e originalidade.

"Cidade do Deus" envolveu alguns dos melhores profissionais de cinema brasileiros da atualidade.Todos reunidos para falar de um dos temas mais contundentes da produção cinematográfica nacional,a violência urbana.Na verdade,o tema não era tão contundente assim até lançamento do filme,em 2002.A obra gerou inúmeros debates,revelou novos talentos,ganhou prêmios mundo afora,e abriu caminho para vários outros filmes sobre a violência brasileira que viriam pela frente.E se já não bastasse a babação da crítica internacional em cima da obra"Cidade de Deus" tornou-se um dos filmes brasileiros mais populares de todos os tempos,a a violência nua e crua que chocou as platéias estrangeiras,divertiu o público brasileiro,que já adotou a famosa fala:"Dadinho é o c@!#$....." como um bordão popular.Portanto,já não serei o primeiro a ovacionar a obra-prima de Meireles,muito menos o último.

Diferente de Glauber,Fernando Meireles não possui nenhuma estilo próprio,ele procura reinventar-se a cada projeto.Isso mostra sua já assumida preferência em aproximar suas obras do público ao invés da crítica.É impossível defini-lo como um estilo,e sim com suas preferências e preocupações ao realizar um filme.Basta ter em mente que ele é um diretor que possui na sua filmografia um filme infantil "Menino Maluquinho 2" junto com o próprio "Cidade de Deus".Mas,além de tudo,ele é um grande orgulho para todos os cinéfilos brasileiros,que há tempos não tinham um conterrâneo alcançando voôs tão altos.Indicado ao Oscar,e diretor de outros dois excelentes filmes em Hollywood,"Jardineiro Fiel" e "Ensaio Sobre a Cegueira".

sinopse:Buscapé é um menino pobre,habitante da recém-inaugurada comunidade "Cidade de Deus".Com o tempo,a violência toma conta o local,que acaba se tornando uma das mais violentas favelas do Rio de Janeiro.Sensível e desorientado,Buscapé teme a vida de bandido,e busca na fotografia uma salvação.Pelas lentes da sua câmera,ele olha conta a história da favela e seus mais ilustres personagens.

O filme traça um interessante panorama do Rio de Janeiro dos anos 60,70 e 80.Reconstituindo com perfeição o período em nos bailes funk´s se escutava James Brow ao invés de Tati Quebra-Barraco.Todos os elementos culturais pertencentes a cada década estão presentes no filme,que são retratadas de forma linear,em três fases nitidamente distintas entre si.Mesmo assim,o ritmo nunca se perde,e até mesmo o interesse do público que não liga pra esses detalhes é mantido.

As principais críticas ao filme do povo que não gostou são:
1.Cidade de Deus glorifica a violência.
2.O filme passa uma imagem ruim do Brasil para o público estrangeiro.
Não considero o filme perfeito,impecável,mas não consigo compreender as duas afirmações.A primeira é a mais absurda."Cidade de Deus" é um dos mais bonitos manifestos pró-paz já feitos no cinema.Diferente do 'neo-noir tarantinesco' no qual o filme é muitas vezes erroneamente comparado,é explícito em cada cena de violência a discrição no qual Meireles e sua equipe tratam o tema.Sempre quando alguém morre,a imagem é imediatamente desfocada,e a câmera muda de perspectiva.A violência gráfica é pouca durante todo o filme,assim como qualquer apologia a ela.Isso sem falar no nítido moralismo do desfecho da trama.
Quanto a segunda questão,basicamente deve-se ressaltar que é um comentário feito pessoas que não compreendem cinema,ou não tem noção dos problemas do país onde vivem.O que eles queriam ver na tela num filme sobre o Brasil? Mulatas sambando no carnaval? As praias e todas maravilhas naturais do país? Será que todo filme nacional tem que ser uma propaganda turística?

Como já citei antes,"Cidade de Deus" é constantemente comparado a "Pulp Fiction" e outros filmes de Tarantino.Tal comparação não condiz em nada com o propósito dos realizadores,que negam veemente qualquer ligação.Mesmo assim,existem claras influências do cinema dos anos 90.É fácil de enxergar "Os Bons Companheiros" no filme.O ritmo frenético,a edição inteligente e principalmente a narração em off,se assemelham muito com a obra de Scorcese,que por sinal é fã de Meireles.Em algumas cenas a influência pode até ser vista como uma homenagem.Sabe aquela tomada de "Os Bons Companheiros" em que a câmera viaja pelo bar e Ray Liotta vai apresentando as curiosas figuras do local ao espectador? Troque o bar pela favela,Ray Liotta por Alexandre Rodrigues e os mafiosos italianos por bandidos dos morros cariocas,pronto,você tem uma cena de "Cidade de Deus".

Se pudesse estimar uma porcentagem de méritos dos realizadores do filme,atribuiria uns 40% do brilhantismo da obra a Daniel Rezende,o responsável pela edição.Sua influência na forma como a trama se desenvolve e nos truques de câmera é enorme.Talvez a edição seja um dos maiores diferenciais da obra,mas está milhas longe de ser o único.Deve-se aplaudir Bráulio Mantovani pelo roteiro perfeito,César Charlone pela fotografia vívida que muda conforme a trama,o elenco impecável,e é claro,aplausos também para Fernando Meireles,o maestro dessa tão bem orquestrada obra-prima.

nota:9,6

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

BRUNO(2009)
diretor:Larry Charles
roteiro:Sacha Baron Cohen,Anthony Hines,Peter Baynham,Dan Mazer,Jeff Schaffer
elenco:Sacha Baron Cohen


Qual é o limite que o humor negro pode atingir? O que choca a platéia? Você,se sente incomodado em ver um close genital? E uma uretra falante?? Sacha Baron Coehn testa tudo isso e muito mais em seu novo manual de como deixar pessoas constrangidas.Depois do sucesso de "Borat" em 2006,Coehn e Larry Charles resolvem impor mais um desafio ao público,dessa vez cem vezes mais ultrajante e ofensivo,e é claro,ainda deixando mandíbulas doloridas no final da sessão.

"Bruno" pode não repetir a genialidade de "Borat",mas mantém o status de Cohen ainda alto.Embora ele seja odiado na mesma proporção que é aclamado,seu talento é inegável.Na verdade,a comédia é cheia de pessoas talentosas,o que diferencia Sacha dos milhares de stand uppers e imitadores por aí é a sua estupenda originalidade e capacidade de inovação.Sem impor limites a si mesmo,e conservando o bom e velho humor britânico,Cohen é o comediante do momento.

Desde quando estreou como comediante no extinto programa da Sony "Da Ali G Show",Cohen já apresentou suas três faces,um repórter cazaque,um rapper britânico e um repórter gay austríaco.Desde então,ele simplesmente ignorou sua identidade,assumindo de vez as três figuras bizarras que ele mesmo criou.Fazendo apenas algumas pontas como ele mesmo,em filmes como "Sweeney Tood" de Tim Burton.Em 2006 ele aliou-se a Larry Charles, diretor especializado em documentários e polêmica,e juntos chegaram ao consagrado formato "documentário falso" apresentado em "Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja a América".

Historiador por formação,Cohen sabe muito bem o impacto de sua comédia.E vê nos seus pseudônimos uma forma de expor preconceitos,mostrando a ignorância do próprio espectador ao se sentir ridicularizado.Outro aspecto interessante do humor de Cohen é a sua capacidade ilimitada de fazer piada sobre tudo,até sobre assuntos que as pessoas temem em falar de tão sérios que são.Para ele não existe bom ou mal gosto,existe apenas a meta de fazer o público rir.Em "Bruno",esse meta é alcançada,deixando o engajamento político e social um tanto apagado,mas ainda está presente.

sinopse:Bruno é reporter gay austríaco,que apresenta em seu país um popular programa sobre o mundo fashion.Após uma série de fracassos,ele é demitido do seu trabalho.Para reconsquistar sua popularidade se tornar "o maior megastar austríado desde Hitler",Bruno viaja aos Estados Unidos,usando todos os artifícios possíveis para alcançar a fama.

Do ponto de vista dramático,a questão da história,"Bruno" apresenta uma grande regressão se comparado a "Borat".O novo filme não possui uma trama fixa,ele apenas vai apresentando as tentativas escrotas do protagonista de se tornar celebridade,sem nenhuma uniformidade ou linearidade entre as situações.Uma pena,principalmente se levarmos em conta o tamanho da equipe de roteiristas do filme.

Outro ponto questionável de "Bruno" é a veracidade das"pegadinhas".Se realmente não forem verídicas,são muito bem encenadas.Algumas cenas como a do desfile de moda,já haviam sido noticiadas pelos tablódides de fofoca há algum tempo,quem já não tinha visto:"Comediante britânico causa confusão em importante desfile europeu".Já outras,parecem um pouco absurdas demais,levando muitas vezes o espectador a pensar "mas que anta esse entrevistado!".Se for tudo mentira,é uma pena,mas não chega a tirar a graça da brincadeira.

Em "Borat" apenas o público estritamente moralista e convencional não aprovou ou não entendeu o humos de Cohen.Afinal,o filme era focado em absurdos étnicos e religiosos.Já em "Bruno",além de piadas sobre negros,muçulmanos e anões,existe um forte cunho sexual na produção.Isso certamente chocou muito mais a platéia."Bruno" e seus órgãos sexuais acrobatas causaram um impacto cem vezes maior na platéia.Mesmo tendo uma boa arrecadação nas bilheterias,o índice de aprovação do público foi bem menor.Basta visitar alguns fóruns de debate e entrar no tópico do filme para constatar isso.

Mesmo não causando o mesmo impacto de seu antecessor,"Bruno" continua sendo uma comédia acima da média,um humor incrivelmente subversivo e inteligente.Piadas que ninguém deveria achar graça,mas que causam gargalhadas compulsivas mesmo naqueles que disseram odiar o filme no fim da sessão.Vassup!!!!!

nota:7,3

Sacha Baron Cohen no Letterman:

Bruno no Letterman: